Entrevista

EXCLUSIVO – Daniel Soranz revolucionou a saúde pública do Rio e consolidou um dos maiores legados do SUS no Brasil

De médico da família ao protagonismo de uma das maiores transformações da saúde pública do país, a trajetória de Daniel Soranz se mistura à reconstrução do SUS carioca nas últimas décadas. Responsável pela criação das Clínicas da Família, pela ampliação histórica da atenção básica e pela condução da saúde municipal durante a pandemia da Covid-19, Soranz ajudou a consolidar no Rio um modelo de saúde pública reconhecido internacionalmente e que impactou diretamente milhões de pessoas.

Quando assumiu a Subsecretaria de Atenção Primária, em 2009, o Rio de Janeiro tinha apenas 3,5% de cobertura da Estratégia Saúde da Família — um dos índices mais baixos do Brasil. A partir daquele momento, iniciou uma transformação estrutural inédita: foram implantadas 115 Clínicas da Família, criadas 1.280 equipes de saúde e ampliada a cobertura para 70% da população, levando atendimento básico a mais de 4,3 milhões de cariocas. Os resultados apareceram também nos indicadores de saúde. As internações por hipertensão e diabetes caíram 38,5%, gerando uma economia de R$ 120 milhões em hospitalizações evitáveis. O modelo implementado na capital fluminense recebeu o prêmio internacional da WONCA, principal reconhecimento mundial da Medicina de Família e Comunidade. “Não existe saúde pública forte sem atenção primária forte. A Clínica da Família mudou a lógica da saúde no Rio porque passou a cuidar das pessoas antes que elas chegassem ao hospital”, afirma Daniel Soranz.

O site MeDizOnline entrevistou o Dr. Daniel Soranz. Confira abaixo o bate-papo exclusivo:

O que significou para o senhor a reconstrução do SUS carioca?

A reconstrução do SUS carioca significou devolver dignidade à população. Quando retornamos à gestão, encontramos uma rede bastante deteriorada, fruto da falta de planejamento e de vontade política. Conseguimos reconstruir a saúde pública com gestão eficiente e compromisso com as pessoas. Ampliamos a cobertura da Saúde da Família de cerca de 3,5% para quase 80%, fortalecendo a atenção básica e garantindo atendimento mais próximo das residências. Também criamos os Super Centros para reduzir filas e avançamos em parcerias importantes para recuperar hospitais federais que estavam abandonados, como o Andaraí e o Cardoso Fontes. Tudo isso é resultado de gestão e vontade política para fazer acontecer. O SUS não pode parar. Tudo o que avançou precisa ter continuidade.

O povo carioca agradece muito ter uma Clínica da Família perto de casa. Isso facilita muita coisa! O senhor acha que a Clínica da Família está perfeita ou ainda falta algo?

A saúde pública é um processo de constante desenvolvimento. Conseguimos ampliar a cobertura da atenção primária de 3,5% para quase 80%, mas é claro que ainda há muito a ser feito. As Clínicas da Família aproximaram as equipes de saúde da população e isso faz toda a diferença. A atenção primária consegue resolver cerca de 80% dos problemas de saúde, evitando agravamentos e reduzindo custos hospitalares. A Clínica da Família transformou a saúde pública do Rio, mas sempre há espaço para ampliar equipes, investir em tecnologia, melhorar estruturas e fortalecer ainda mais o atendimento humanizado.

Dois pilares importantes de uma gestão são saúde e educação. O senhor concorda com isso?

Concordo plenamente. Saúde e educação caminham juntas. Investir na formação de profissionais, em ciência, pesquisa e educação é essencial para melhorar a qualidade de vida da população e construir uma sociedade mais segura e desenvolvida. Aqui no município do Rio, desenvolvemos ações integradas entre saúde e educação, como campanhas de vacinação nas escolas, busca ativa de crianças não vacinadas e incentivo à alimentação saudável, reduzindo o consumo de ultraprocessados. Um país só cresce quando investe nas pessoas.

O que é mais importante em um momento de pandemia como foi a da COVID-19?

O mais importante é ter ciência, planejamento e transparência. O SUS já enfrentou outras crises sanitárias e possui experiência nesse tipo de situação. Durante a pandemia da COVID-19, criamos o Centro de Inteligência Epidemiológica (CIE), que foi fundamental para acompanhar os dados, orientar decisões e conduzir ações de enfrentamento. Conseguimos ampliar a testagem, organizar a vacinação e garantir informação correta para a população. O Rio acabou se tornando referência nacional na condução da pandemia justamente por seguir a ciência e priorizar a proteção da vida.

Quem assumiu a Secretaria de Saúde dará continuidade ao trabalho realizado?

No governo Eduardo Paes existe uma linha de trabalho muito clara e um planejamento estruturado para a saúde pública. Tenho confiança de que haverá continuidade nos avanços conquistados.Cada gestor possui seu próprio estilo, mas espero que o compromisso com o SUS, com a atenção básica e com a população carioca continue sendo prioridade absoluta.

O que ainda falta para o Dr. Daniel Soranz realizar?

Ainda há muito a ser feito pela saúde pública do nosso estado. Precisamos reconstruir a saúde estadual, que foi degradada e negligenciada durante muitos anos. Assim como conseguimos recuperar hospitais federais e fortalecer a rede municipal, também precisamos avançar na recuperação dos hospitais estaduais e ampliar o acesso da população a serviços de qualidade. Meu maior objetivo sempre foi trabalhar para melhorar a vida das pessoas por meio de políticas públicas eficientes, especialmente na área da saúde.

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