Cultura

Mulheres do Grande Sertão Veredas transformam memória ancestral em dança e protagonismo

Projeto “Relembranças: Memórias dançadas de um Tempo Velho” é lançado em Minas Gerais para fortalecer saberes culturais e a autonomia de mulheres negras de comunidades quilombolas e tradicionais

A dança nasce do chão. Do som dos pés batendo na terra, dos corpos que carregam histórias antigas e das cantigas que passam de geração em geração. No noroeste de Minas Gerais, mulheres transformam dança e canto em memória viva, em forma de cuidado e em jeito de seguir existindo. É desse território de saberes ancestrais que o Instituto Rosáceas lança o projeto “Relembranças: Memórias Dançadas de um Tempo Velho”, uma iniciativa que coloca no centro as experiências, histórias e modos de viver de mulheres negras e de comunidades tradicionais da região, e registra na forma de documentário.

O projeto acontece em quatro comunidades quilombolas: Barro Vermelho I, Buraquinhos, Morro do Fogo e no distrito de Serra das Araras, em Chapada Gaúcha. São territórios marcados por desigualdades históricas, desafios socioambientais e, ao mesmo tempo, por uma forte presença de culturas afro-brasileiras, onde as mulheres são guardiãs das memórias, das festas, das danças e dos saberes transmitidos oralmente – e são foco do projeto.

A partir do contato com a dança, cantigas e narrativas antigas, aprendidas com mães, avós e outras gerações, elas transmitem histórias que não estão nos livros – histórias de luta, de cuidado, de celebração e de pertencimento ao território.

Além das vivências culturais, estar dançando e compartilhando junto de outras mulheres cria um espaço de fortalecimento coletivo. Quando mulheres dançam juntas, criam laços, se reconhecem umas nas outras, compartilhando vivências, emoções e desafios. Ocupando o espaço com seus corpos, elas afirmam o direito de existir, de celebrar sua cultura e de permanecer em seus territórios. A dança, assim, não é só arte: é linguagem de resistência, autonomia e futuro, uma forma de manter vivas essas tradições e também de cuidar da saúde, da autoestima e da autonomia das mulheres.

*O documentário: mulheres contando suas próprias histórias*

Um dos eixos centrais do projeto é a produção de um documentário construído a partir da perspectiva das próprias mulheres. Elas são convidadas a compor a direção, a filmagem, a montagem e também a atuação, participando de todas as etapas do processo audiovisual. A proposta é que as imagens, os sons e as narrativas sejam registradas a partir do olhar feminino, comunitário e territorial, garantindo que as histórias sejam contadas por quem as vive.

O projeto também inclui a confecção de figurinos e saias tradicionais, produzidos por costureiras locais, fortalecendo o trabalho artesanal, gerando renda e valorizando os saberes do território.
Todos esses processos – encontros, danças, cantos, memórias e aprendizados – serão registrados no documentário, sendo uma forma de preservar a cultura local e ancestral.
Mais do que preservar manifestações culturais, “Relembranças” reconhece dança e canto como formas de cuidado, resistência e afirmação da vida, especialmente em contextos atravessados pelo racismo ambiental, pela violência de gênero e pela ausência de políticas públicas. Ao valorizar o que as comunidades chamam de “Tempo Velho” – o tempo dos mais antigos, dos ensinamentos herdados e do vínculo com a terra -, o projeto atualiza essas memórias no presente e fortalece o protagonismo das mulheres na vida comunitária.

SOBRE O INSTITUTO ROSÁCEAS
O Instituto Rosáceas é uma organização não governamental sem fins lucrativos, criada em 2007, que atua no noroeste de Minas Gerais com o propósito de promover a sustentabilidade social, econômica e ambiental de comunidades tradicionais e quilombolas localizadas entre os municípios de Arinos e Chapada Gaúcha. Suas ações são orientadas pelo fortalecimento da autonomia e da reflexão crítica dos moradores, por meio da retomada de tradições ancestrais, da promoção da segurança alimentar, da inclusão social e do enfrentamento das desigualdades de gênero e raça, reconhecendo esses territórios como espaços vivos de produção de saberes, cultura e modos de vida singulares.
Ao longo de sua trajetória, o Instituto Rosáceas consolidou projetos de grande relevância territorial, como a travessia sócio-eco-literária “O Caminho do Sertão: de Sagarana ao Grande Sertão Veredas”, que articula cultura, economia local e valorização da memória do território, e o Programa Institucional Territórios Sustentáveis e Saudáveis (PITSS), desenvolvido desde 2019 em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz. Com iniciativas que abrangem segurança hídrica e alimentar, saúde, educação, letramento racial e preservação do bioma Cerrado, o instituto atua a partir de uma práxis antirracista e de igualdade de gênero, buscando fortalecer a governança comunitária e a capacidade coletiva de decisão, em defesa dos territórios, das relações comunitárias e do ecossistema que sustenta essas comunidades.

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