
Uma das histórias mais marcantes do futebol brasileiro chega às telas de cinema no longa-metragem “Camisas Negras”, dirigido pelo cineasta Jefferson Mello. A obra recupera a trajetória da equipe do Vasco da Gama que, no início dos anos 1920, entrou para a história ao conquistar o Campeonato Carioca com um time formado majoritariamente por jogadores negros e de origem popular. Mais do que reconstruir um episódio fundamental do esporte nacional, o filme estabelece uma ponte entre aquele momento histórico e as diferentes manifestações do racismo que ainda atravessam os estádios e a sociedade contemporânea. A obra já nasce pioneira, sendo o primeiro filme a abordar e investigar o racismo no futebol com uma visão global. O filme chegará aos cinemas dia 19 de novembro.
Elenco: Juan Paiva (Cecy), Sergio Malheiros (goleiro Nelson), Bruno Mazzeo (José Augusto Prestes), Thelmo Fernandes (Raul Campos), Roberto Birindelli (Ramón Platero), Antonio Fragoso (Arnaldo Guinle), Rodrigo Candelot (Antonio Campos) e Claudio Paiva (Mario Pollo).
Legado Histórico para o Esporte e Contra o Racismo
Nos anos 1920, o futebol no Rio de Janeiro era um ambiente elitista, restrito aos clubes da Zona Sul, que criavam mecanismos para excluir pessoas negras, operários e membros das classes populares. Na contramão desse cenário, o Vasco da Gama — agremiação de forte base popular e ligada à comunidade portuguesa — apostou em uma formação inclusiva e competitiva, recrutando talentos vindos das fábricas e dos subúrbios cariocas, sem distinção de raça ou origem social.
Sob o comando do treinador uruguaio Ramón Platero e vestindo seus marcantes uniformes inteiramente negros — motivo pelo qual o grupo ficou conhecido como “Camisas Negras” —, a equipe exerceu um amplo domínio na competição. O elenco eternizou nomes fundamentais na história do esporte nacional: Nélson na baliza; Leitão e Mingote na defesa; Nicolino, Bolão e Arthur na linha média; além do ataque formado por Paschoal, Torterolli, Arlindo, Cecy e Negrito.
O Vasco foi campeão carioca em 12 de agosto de 1923, com uma rodada de antecedência, derrotando grandes clubes da época, como Flamengo e Botafogo. Clubes estes, que me representavam, fundaram uma nova liga e exigiram a saída de 12 jogadores — negros e trabalhadores, vindos das camadas populares — sob pretexto de que os mesmos não tinham “perfil adequado para o esporte e ainda menos, valor moral”.
José Augusto Prestes, presidente do Vasco na época, recusou-se a acatar a exigência absurda de desfazer o elenco, retirou o clube da nova liga por meio de um documento que ficou conhecido como a Resposta Histórica de 1924. Não se submeteram ao ato preconceituoso e o time jogou a liga alternativa naquele mesmo ano, tornando-se bicampeão invicto para o desgosto dos oponentes.
Jeferson Mello, diretor de “Camisas Negras”, explica que a ideia de fazer o filme “surgiu da necessidade de investigar como o racismo atravessa o tempo e permanece presente tanto no futebol quanto na vida cotidiana da população negra. Embora a história retratada no filme tenha suas raízes há mais de cem anos, meu principal questionamento durante a realização da obra foi perceber o quanto essas estruturas de exclusão e discriminação continuam vivas na sociedade contemporânea”. Explica.
O diretor também detalha o processo de trabalho de pesquisa e produção para a realização do longa:
“Por essa razão, optei por uma linguagem híbrida, combinando documentário e ficção. Esse formato me permitiu estabelecer um diálogo entre passado e presente, memória e realidade, mostrando que os acontecimentos vividos pelos Camisas Negras não pertencem apenas à história. Eles ecoam nas experiências de milhões de pessoas negras que ainda enfrentam o racismo em diferentes espaços da vida social. Ao longo da produção, percorri seis países, buscando construir uma visão global sobre o tema e compreender como as diferentes manifestações do racismo estão conectadas. Essa jornada ampliou a perspectiva do filme e reforçou a percepção de que, embora os contextos mudem, os mecanismos de exclusão racial continuam produzindo impactos semelhantes em diversas partes do mundo”, detalha Jeferson.
Para Jeferson, o filme possui a missão de ser uma produção que conduz o olhar do espectador para além da arte e do amor de uma torcida, mas de consciência coletiva, de entendimento sobre o que não cabe mais na contemporaneidade a respeito de segregação racial, preconceito e direitos:
“Mais do que denunciar injustiças, meu objetivo foi utilizar a linguagem cinematográfica como instrumento de transformação. Acredito que o cinema possui a capacidade de gerar identificação, provocar reflexão e estimular mudanças. Nesse sentido, “Racismo & Camisas Negras” é também uma contribuição para a luta antirracista, não apenas dentro do universo do futebol, mas em todas as dimensões da vida cotidiana do povo negro. Espero que o filme incentive o público a refletir sobre a persistência dessas desigualdades e sobre a necessidade de construir uma sociedade mais justa, consciente e comprometida com a igualdade racial”.