Cultura

Lília Refle lança seu novo romance A Cor da Felicidade


O lançamento pela Editora Patuá aconteceu no dia 8 de agosto, no Recipiente Porongo, centro cultural em Botafogo, Rio de Janeiro. Embora não seja uma autobiografia, Lília viveu como Zulmira a miséria social e o desejo profundo pelo conhecimento e escolarização.
“Quando se nasce socialmente miserável, as escolhas são feitas nas ausências, não nas oportunidades”, resume. Nascida em Itamaraju, cidade que inspirou a origem da protagonista Zulmira, Lília é filha de mãe semianalfabeta e uma entre 18 irmãos.


“Vivemos em um país no qual a educação básica é um privilégio de classe. Eu nasci em 1984 e comecei a frequentar a escola em Itamaraju no início da década de 90. Era uma realidade muito dura. A maior parte das crianças não chegava a ingressar em uma escola. Era absurdamente difícil conseguir uma vaga em uma escola pública. Lembro que a minha mãe
chegou a dormir na fila do portão da escola por duas noites, para que eu fosse matriculada. E isso, por si só, já era bastante excludente. Pois a maior parte das crianças começava a trabalhar em tempo integral muito cedo. E a educação era vista como “roubo de tempo”. Pois ninguém acreditava em uma ascensão através da educação. Eu tive a sorte de ter tido uma mãe que queria mais do que o seu próprio destino para os filhos. Ela sempre dizia: ‘meus filhos vão aprender a ler e escrever de verdade, não como eu’ ”, conta a autora.


Lília começou a trabalhar aos nove anos e passou na infância episódios de fome extrema. Foi descoberta por um olheiro aos 13 anos, migrou para São Paulo como modelo e, mais tarde, estudou Jornalismo, Moda e Letras. A epígrafe do livro — que sonha com um país em que qualquer pessoa, “independentemente da sua origem social, possa ler, entender e criticar
Foucault” — sintetiza o eixo temático da obra: a desigualdade de acesso à educação no Brasil. Na visão da autora, é essa exclusão que leva a protagonista Zulmira a idolatrar Afonso Batista como uma espécie de "deus do saber”, em uma trajetória que a transforma em uma figura incompreendida — “louca, livre e aprisionada”, nas palavras da própria escritora.

Dedicado “a todas as meninas que se viram impostas a viver no campo do dessaber eterno”,  A cor da felicidade é, segundo Lília, também um libelo político. Lília afirma esperar que leitoras negras e de origem social pobre reconheçam, na trajetória de Zulmira, a possibilidade de romper com destinos social e racialmente impostos. Já para leitores de outros contextos, o convite é à construção de uma consciência de classe — a capacidade de enxergar a realidade a partir de outras perspectivas.

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