Entrevistas

Gustavo Falcão fala de papel em ‘Elize: sombras de uma mulher’, do Netflix, e de trabalhos na TV e teatro

Gustavo Falcão é um dos destaques do filme ‘Elize: Sombras de Uma Mulher’, que estreou no dia 22 de julho no Netflix. Dando vida a Heitor, melhor amigo de Marcos Matsunaga, ele mergulhou na complexidade emocional de seu personagem, um homem que caminha entre as sombras e a luz. Ele revela: “Heitor é um personagem que representa uma área cinzenta. O maior desafio foi retratar seu lado animalesco e instintivo, mantendo sua humanidade. Ele é perigoso e sedutor, sempre observando ao seu redor, pronto para capturar novas oportunidades. É esse estranhamento que eu busquei transmitir ao público”.

Contracenando com Henrique Kimura e Lorena Comparato, que interpretam Marcos e Elize, respectivamente, Falcão ressalta a densidade da dinâmica entre os três personagens: “Essa relação é cheia de mistério e provoca muitos questionamentos sobre a natureza das relações humanas. Enquanto Heitor está próximo de Marcos, há uma estranheza em sua relação com Elize, que eu tentei expor por meio de gestos e olhares, criando uma tensão subjacente que permeia todo o longa.”

O ator quis trazer com sua interpretação uma narrativa complexa e instigante, que vai além do sensacionalismo da mídia. “O filme não busca simplificações. Ele provoca mais perguntas que respostas e convida o espectador a explorar as motivações obscuras dos personagens”, destaca. Essa abordagem, segundo ele, é uma oportunidade única de refletir sobre as complexidades do ser humano e suas ações.

Além do filme, Gustavo também está presente na nova adaptação de ‘Ben Hur’, da Record TV, que tem estreia inicialmente prevista para outubro. Na série, ele interpreta Élio, o governador romano da Judeia. “Élio é extremamente hedonista e adora o poder. É um político habilidoso, que sabe que a roda da política gira rapidamente, e esse conhecimento o torna ainda mais astuto e perigoso”, comenta. Ele descreve seu personagem como alguém que tem prazer em explorar os meandros do poder e que, por isso, se destaca em meio ao ambiente de tensões entre romanos e judeus. “A liberdade criativa que tive nesta produção foi uma experiência deliciosa, permitindo-me dar vida a um personagem sarcástico e multifacetado.”

Natural de Recife, Falcão destaca a importância de sua terra natal em sua trajetória. “Cresci em um ambiente cultural rico, onde artistas como Antonio Carlos Nóbrega, Chico Science, Ariano Suassuna e Francisco Brennand foram grandes influências. A cena artística pernambucana me moldou e me deu as bases para a carreira que tenho hoje”, afirma. Ele começou sua trajetória profissional em 1995, com a peça “Os Biombos”, de Jean Genet, dirigida por Antonio Cadengue. “Esse foi meu primeiro contato com o palco e uma experiência transformadora”, relembra.

Com 31 anos de carreira, ele continua conectado com sua comunidade e está atualmente desenvolvendo um projeto especial lá. “Estou trabalhando na adaptação para o cinema de um episódio da vida do pintor pernambucano Cícero Dias, em parceria com meu irmão Léo Falcão e a REC Produtores”, compartilha. “Queremos filmar grande parte da história no Recife, trazendo à tona não só a figura de Cícero, mas também a riqueza cultural da nossa cidade”, enfatiza.

Gustavo Falcão tem uma carreira sólida no teatro, onde já atuou em peças memoráveis como “A Máquina”. “Nesse projeto, tive um aprendizado incrível, não apenas como ator, mas também como diretor, quando assumi a remontagem dessa fábula que narra o amor de Antônio e Karina”, conta. “Foi um divisor de águas, proporcionando uma experiência que tornou meu entendimento sobre a atuação ainda mais profundo”.

No cinema, seu papel em “Arido Movie” como Falcão, um personagem cujas interações emocionais são centrais na narrativa também o destacaram. “O filme me deu a oportunidade de conhecer e trabalhar com uma equipe e atores incríveis, enriquecendo meu repertório”, relembra.

Em novelas o ator de 50 anos deixou sua marca como Faísca em “As Filhas da Mãe”, onde encarnou um surdo mudo de inspirações chaplinianas, com uma sensibilidade própria, além de interpretar Jonas em “Cobras & Lagartos”, um jovem dividido entre a religiosidade e a malandragem de sua família. “Ambos os papéis exigiram um equilíbrio delicado entre drama e humor, e me permitiram explorar áreas muito diferentes da atuação”, destacou.

Em séries teve atuações de sucesso em produções como ‘Cine Holliúdy’, ‘Aruanas’ e ‘Filhos do Carnaval’.

“’Filhos do Carnaval’ foi a primeira grande série de que participei e um marco de aprendizado, em um momento em que o formato ainda engatinhava no Brasil. Tive o privilégio de trabalhar com Cao Hamburger, Helena Soarez e um elenco incrível em uma história forte e muito brasileira. ‘Aruanas’ também foi especial: um projeto narrativamente ambicioso, que abordou com responsabilidade temas sociais, políticos e ambientais, além de destacar o protagonismo feminino — uma realização profissional da qual me orgulho também por razões ideológicas. Já ‘Cine Holliúdy’ foi uma das experiências mais prazerosas da minha carreira. Ao longo de três temporadas, construímos uma verdadeira família entre elenco e equipe, reunindo talentos de diferentes estados. Interpretar Jujuba, um personagem cheio de nuances, com liberdade criativa e parceria com a direção, foi um privilégio’, complementa o ator.

Gustavo também é um diretor ativo, tendo liderado montagens como “Partiu 90!” e a remontagem de “A Máquina”. “Dirigir essas peças foi um processo enriquecedor que ampliou minha visão sobre a atuação e a colaboração e interação ativa com os integrantes dos elencos”, enfatiza ele. Além disso, dirigiu e roteirizou o curta-metragem ‘30 Moedas’ ao lado de Marcos Arzua Barbosa. A produção narra um embate em um barco à deriva, no meio do mar, entre dois personagens de classes sociais distintas e orientações ideológicas deformadas pela corrupção política, religiosa e social sistêmica, escancarada nos tempos atuais.

Outro aspecto importante da vida dele é sua contribuição à cultura através do “Lunático”, um espaço cultural que ele fundou. “O Lunático começou como um espaço de encontros artísticos e culturais. Durante a pandemia, transformamos nossa abordagem em um projeto mais focado na educação. Hoje, oferecemos aulas de circo, teatro e cinema em 17 instituições do Rio de Janeiro, levando a arte como instrumento de formação para crianças e adolescentes”, compartilha Falcão.

“Criar um ambiente onde a arte possa florescer e impactar a vida das pessoas é uma missão que me motiva profundamente”, completa.

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