Teatro

Comédia “Édipo de novo?” reestreia com piadas atualizadas no calor do ano eleitoral

Indicada ao Prêmio do Humor, montagem carioca mistura Sófocles com os assuntos mais recentes do noticiário brasileiro

Como renovar o interesse por uma história escrita há cerca de 2.500 anos? A resposta do grupo de atores que vem lotando teatros no Rio é clara: transformar uma das maiores tragédias gregas em uma comédia atualizada semanalmente com os memes e absurdos do noticiário brasileiro. Sem trair a essência da saga criada por Sófocles, Édipo de novo? nunca é exatamente o mesmo espetáculo.  E desta vez, a nova temporada que reestreia dia 31 de julho na Casa de Cultura Laura Alvim, acontece com o tempero extra da campanha eleitoral.

“Estamos afoitos para iniciarmos a temporada porque o Brasil não para de nos dar material. Eleição é um prato cheio. Antes mesmo de sabermos desta nova temporada, já estávamos trocando mensagens como ‘essa notícia naquele momento da peça seria ouro’. Agora vamos ter a chance de colocar tudo que pensamos em cena. Não podíamos estar mais animados”, revelam.

Dirigida por Thiago Bomilcar Braga, a montagem explora a percepção de que a política brasileira e a tragédia grega têm muito mais em comum do que parece. Reviravoltas, improváveis e acontecimentos absurdos que parecem ficção criam o terreno ideal para transportar o mito de Édipo para o Brasil de hoje. Assim, em meio ao clássico, surgem referências ao cotidiano nacional. Édipo promete não taxar as “blusinhas importadas de Atenas”, enquanto a Esfinge pode surgir defendendo a privatização das praias ou sonhando em anexar a Groenlândia.

“É um novelão, cheio de reviravoltas, com elementos místicos, monstros, vilões e mocinhos. Até o próprio herói que seguimos, Édipo, está longe de ser bonzinho, já que carrega em si uma enorme soberba. E temos que convir que as notícias políticas do Brasil são tão trágicas ou tão cheias de reviravoltas quanto à trama grega”, comenta.

Relembre o clássico

Na saga criada por Sófocles, antes mesmo de nascer, Édipo já carregava uma profecia terrível: mataria o próprio pai e se casaria com a mãe. Na tentativa de escapar do destino, sua família toma uma série de decisões questionáveis, que acabam por empurrá-lo exatamente para aquilo que queriam evitar. Criado como príncipe de Corinto longe da cidade em que nasceu, Édipo toma conhecimento de tal profecia e, sem saber de toda a verdade, decide fugir de quem acredita serem seus pais, para protegê-los. No caminho ele mata um estranho, sem imaginar que era o seu pai biológico. Depois, salva Tebas de uma Esfinge e se casa com a rainha Jocasta, sua mãe biológica, também sem saber. Anos mais tarde, ao investigar uma praga que assola a cidade, Édipo descobre que o culpado que procura é ele mesmo.

Segundo o diretor, “o exagero da tragédia já tem um ar cômico. A tragédia e a comédia são interligadas. Chico Anysio dizia que ‘a tragédia de ontem é o humor de hoje’ e Marisa Orth afirma que ‘a piada boa começa quando você descobre o furo na canoa, quando a maçaneta sai na sua mão’. Os acontecimentos no mito de Édipo são tão absurdos que não tem como ignorar o humor por trás daquela desgraceira toda”.

O público pede bis

Além das sessões cheias e das três indicações ao Prêmio do Humor (Melhor espetáculo, texto e direção), Édipo de novo? consolidou uma relação de cumplicidade com o público, que já cobra novos clássicos sob a mesma ótica irreverente. A recepção tem sido tão entusiasmada que, durante uma das apresentações, um espectador chegou a gritar da plateia sugerindo que o grupo recriasse a tragédia de Antígona no mesmo formato. “Achamos a maior graça. Realmente já tivemos outras cobranças neste estilo, para explorarmos mais peças clássicas neste viés cômico. Antígona, por ter ligação direta com Édipo, foi a mais pedida”, comenta Thiago.

Embora ainda não haja planos concretos para uma sequência, os artistas afirmam que pretendem seguir pesquisando o potencial cômico de outros grandes clássicos da dramaturgia. “Temos pensado em dar continuidade a este formato, mas não é um plano para agora. Talvez Medeia, que também é uma história extremamente trágica e que pode ficar mais palatável se cavarmos humor ali. Ou até algum outro drama clássico. Quem sabe um “Romeu e Julieta de novo?”. Estamos atentos a novas ideias e conversando sobre novos projetos”, revela.

A formação de Mais uma Cia

Em cena estão Aline Cruz, Fabio Làura, Felipe Pêpe e Laurent Janod, quatro atores que se conheceram há uma década no curso de atuação ministrado por Thiago Bomilcar Braga na Barra da Tijuca. Juntos integraram o elenco de algumas peças, fizeram saraus, leituras dramatizadas e colocaram peças em cartaz, mas nunca só os quatro. Graças ao espetáculo, esta é a primeira vez do quarteto nesta formação.

O projeto nasceu de forma despretensiosa e foi viabilizado com financiamento coletivo, vaquinhas e recursos próprios. Sem patrocínio e também por escolha de linguagem, o elenco se desdobra para criar personagens, cenários e efeitos sonoros, usando apenas a própria fisicalidade diante da plateia. Essa sintonia tão fina e orgânica já faz o grupo flertar com a criação definitiva de uma companhia própria:

“Continuar criando juntos é uma vontade que temos, mas ainda não decidimos oficializar um grupo. Talvez porque já somos, já que trabalhamos juntos há tantos anos. Consolidar isso com um nome e um compromisso, pode estar mais perto do que imaginamos. O nosso sarau se chamou Mais um sarau, para dialogar com Édipo de novo? Quem sabe o grupo se chamaria Mais uma Cia?”, comenta Fábio Làura.

Além da próxima temporada na Casa de Cultura Laura Alvim, o espetáculo já se prepara para ultrapassar fronteiras cariocas, com quatro apresentações confirmadas na Arena B3, em São Paulo.

SERVIÇO

Édipo de novo?

Temporada: de 31 de julho a 30 de agosto

Local: Espaço Rogério Cardoso – Casa de Cultura Laura Alvim

Endereço: Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema, Rio de Janeiro

Dias e horários: sextas e sábados às 19h; domingos às 18h

Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)

Classificação: 16 anos

Duração: 70 minutos

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