Teatro

Satirizando a classe média, Grupo Carmin estreia o inédito “Gente de Classe” no Teatro Firjan Sesi Centro

 

Com sátira sobre a classe média em colapso, peça dirigida por Quitéria Kelly aposta no humor ácido para confrontar gênero, classe e fé em um país à beira de novas rupturas.

 

Em 2040, o condomínio de luxo Nova Canaã já não é apenas o endereço de uma família de classe média: tornou-se a metáfora de um país murado; conforto, discurso e medo convivem sob vigilância privada. É neste território aparentemente protegido que “Gente de Classe, espetáculo inédito do Grupo Carmin e com direção de Quitéria Kelly, projeta um Brasil que parece futuro, mas fala diretamente do presente. A montagem estreia no Teatro Firjan Sesi Centro dia 23 de julho (5ª feira) às 19h, e segue em temporada até 23 de agosto, sempre de quinta-feira a domingo (ver serviço completo no final).
Inspirada nas leituras do sociólogo potiguar Jessé Souza, a dramaturgia constrói um recorte específico da classe média — urbana, escolarizada, moralmente ansiosa — que pode ser reconhecida em diferentes regiões do país. “Não é de uma ‘ficção científica’ clássica, que tenta antecipar o futuro, mas uma crítica do presente a partir da projeção desse futuro possível”, afirma Quitéria Kelly, diretora da peça e também uma das fundadoras do grupo criado em Natal (RN) há quase 20 anos.
No centro da narrativa está uma mãe solo, que cria dois filhos dentro do condomínio blindado Nova Canaã. Ela encarna a contradição entre autonomia e sobrecarga, discurso progressista e prática conservadora. Ao seu redor, personagens majoritariamente femininas ampliam o debate: Maria, a inteligência artificial doméstica, e uma ativista do movimento revolucionário disputam o espaço privado e o espaço público. “O protagonismo feminino é uma larga tradição na modernidade. Por que não imaginar que a próxima revolução deste século XXI comece e seja liderada por mulheres?”, provoca Quitéria.
A encenação tem uma estética assumidamente artificial, limpa e controlada, que reflete um mundo em que as relações humanas passaram a funcionar como um jogo permanente de performance. O cenário, composto por elementos minimalistas e modulares, deixam uma atmosfera “clean”, asséptica e impessoal: tudo parece organizado demais, calculado demais, “como um feed de rede social cuidadosamente editado”, nas palavras da diretora.
Quitéria acredita que a ideia do condomínio e da casa funcionam como metáfora de uma sociedade obcecada por sucesso, perfeição, status, engajamento e pertencimento: um espaço aparentemente perfeito, mas frágil. “Existe sempre uma sensação de vazio e instabilidade”, observa. A escolha do nome “Nova Canaã” também é deliberada. “No Brasil de hoje, é muito forte a instrumentalização política do discurso evangélico e é justamente a partir da religião que a ideologia dominante opera no imaginário”, reforça a diretora. Para ela, consumo e conservadorismo se entrelaçam na manutenção de privilégios.
A encenação se distancia da realidade analógica, com o uso de projeções mapeadas. Esse recurso amplia a sensação de gamificação das relações pessoais, em que tudo é mediado por números, likes, rankings, barras de progresso, desafios e recompensas. Com influência de beats eletrônicos, trap music e da pesquisa musical de Ian Medeiros, a trilha sonora ajuda na construção estética e crítica da obra, ao conduzir a dramaturgia com pulsações, ironias e ritmos.
“Em muitos momentos, ela funciona como um mecanismo de distanciamento: interrompe a tensão dramática para permitir que o humor apareça e que a crítica social possa emergir de forma mais aguda. Essa operação cria um contraste importante entre o absurdo das situações e a leveza aparente com que elas são apresentadas, característica marcante da linguagem do Grupo Carmin”, analisa Ian.
A direção de movimento acompanha essa lógica de artificialidade e controle: os corpos reproduzem gestos automatizados, poses de felicidade, dinâmicas coreografadas de convivência e comportamento performático.

Criada antes da pandemia, a peça foi retomada em 2024, quando o grupo percebeu que as tensões que a motivaram permaneciam ativas. “A surpresa é que, a despeito de estarmos com um governo mais democrático, os temas e as questões levantadas continuavam vivos na sociedade brasileira”, aponta Quitéria Kelly. O conteúdo político, aqui, é assumidamente mais explícito.

SERVIÇO

 

Gente de Classe

 

Temporada: 23 de julho a 23 de agosto de 2026

Horário: Quinta e Sexta-feira, às 19h; Sábado e Domingo, às 17h

Ingressos: R$ 20 (meia-entrada) / R$ 40 (inteira)

Link para Compra de Ingressos

 

Local: Teatro Firjan Sesi Centro

Endereço: Av. Graça Aranha, nº 1 – Centro – Rio de Janeiro

Tel.: (21) 2563-4163

 

Classificação Indicativa: 16 anos

Duração: 60 minutos

Instagram: @teatrocarmin

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