
“Lana, como eu odeio esses caras!” acompanha uma adolescente que encontra o primeiro amor
enquanto desvenda os segredos de uma cidade marcada pelo legado do nazismo e por uma
organização extremista ainda em atividade
Aos poucos, o que parecia ser apenas mais uma mudança para uma cidade do interior se
transforma em uma jornada de autodescoberta, perigo e amor. Lana, como eu odeio esses
caras! (Casa de Astérion), romance de estreia de Arthur Simon, acompanha Jéssica, uma
adolescente que se vê arrancada de sua vida em Florianópolis e jogada em Hortênsias, uma
pequena cidade “fictícia”, de colonização alemã em Santa Catarina. O que ela não esperava era
encontrar ali não apenas a hostilidade de uma comunidade fechada, mas também Lana — uma
vizinha de cabelo platinado, tatuagem de arco-íris e uma habilidade surpreendente: mover
objetos com a mente.
O livro, que será lançado durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na Casa
Gueto, com sessão de autógrafos no dia 24 de julho (sexta-feira), às 15h, e uma roda de
conversa sobre processos criativos às 12h, já nasce com fôlego de obra que dialoga com
questões urgentes. Ambientado em 2008, o romance resgata a atmosfera dos primórdios das
redes sociais — Orkut, MSN, comunidades virtuais — para construir uma trama que é, ao
mesmo tempo, coming-of-age, suspense sobrenatural e thriller político. Em meio a referências
pop que vão de Britney Spears a Friends, Simon costura uma narrativa sobre o que significa ser
diferente em um lugar que cultiva a uniformidade.
A história se desenrola em duas frentes. De um lado, o romance entre Jéssica e Lana, que
desafia as convenções de uma cidade onde “o diferente” é tratado com desconfiança ou
violência. De outro, a descoberta de um passado obscuro: diários de 1942 revelam que o avô de
Lana viveram um amor proibido em plena época do Estado Novo, quando a repressão a
imigrantes alemães e a perseguição a homossexuais eram práticas corriqueiras. O nazismo e o
integralismo, longe de serem fantasmas do passado, mostram-se vivos em uma organização
secreta que ainda opera nas entranhas da cidade. “Hortênsias é a prova de que os ideais
nazistas ainda estão entre nós”, escreve a mãe de Jéssica, jornalista, em um artigo que ecoa a
própria denúncia que o livro faz — um eco das pesquisas que o autor conduziu sobre o
conservadorismo em Santa Catarina, tema que, segundo ele, “o compõe” e não poderia ficar de
fora da obra.

Mas Lana, como eu odeio esses caras! é também uma história de afeto e acolhimento — “o
livro que eu gostaria de ter lido (e, melhor ainda, escrito) quando mais jovem”, nas palavras do
autor. A relação entre as duas protagonistas é construída com delicadeza, em diálogos que
equilibram humor e profundidade. “A gente nasce do jeito que tem que nascer”, diz Lana em
um dos momentos mais tocantes do livro, ao ajudar Jéssica a nomear sua bissexualidade. A
trama também explora o peso do armário, o medo da rejeição familiar e a força que vem da
aceitação, temas que ressoam com a experiência de muitos jovens LGBTQIAP+. Como escreve
Simon, acredita que “a literatura de entretenimento” tem poder formativo, e é esse tipo de
história que ele “orgulhosamente produz”.
Com uma escrita que o próprio autor define como “cinematográfica e hiperestésica” — termo
usado pelo mestre Luiz Antonio de Assis Brasil, com quem Simon concluiu uma oficina literária
em julho de 2026 —, o romance alterna cenas de tensão com momentos de intimidade quase
onírica. A estrutura híbrida da obra, que mescla narração tradicional, bilhetes, posts em fóruns
da internet, artigos de jornal e um diário íntegro transcrito, cria um efeito de “história dentro
da história”, desafiando a linearidade. “O lugar é aqui”, frase que ecoa no diário do avô de Lana,
torna-se o lema de uma história sobre pertencimento e sobre a escolha de ficar e lutar, mesmo
quando tudo parece contra.
Sobre o autor
Arthur Simon, 32 anos, nasceu, cresceu e vive em Florianópolis — com uma breve passagem
por uma cidade de três mil habitantes na Califórnia. Formado em Direito (2016), é servidor
público desde 2018, atuando atualmente como Analista Judiciário no Tribunal Regional do
Trabalho da 12ª Região. Foi a escrita, porém, que o chamou para outro caminho: em 2023,
iniciou uma especialização em Escrita Criativa pela PUCRS (concluída em 2024) e, desde 2025,
cursa Letras — Língua Portuguesa na UFSC. Em 2024, recebeu menção honrosa no 4º Prêmio
Literário Máquina de Contos com o conto O presente de Marta.
Sobre a gênese do romance, ele revela: “foi o meu livro que me escolheu”, a partir de uma
imagem recorrente — duas meninas em uma floresta. “Não haveria livro sem ela; não haveria
sequer Arthur-escritor sem ela”, escreve sobre a esposa, nos agradecimentos. O autor também
idealizou um Clube de Escrita e tem como principais influências a cultura pop, a literatura
norte-americana e autores como Carol Bensimon.
Agenda: Lançamento de Lana, como eu odeio esses caras! na Flip
● Roda de conversa – “Toda história começa com uma pergunta: Processos criativos,
imaginação e os caminhos da escrita”
Data: 24 de julho (sexta-feira)
Horário: 12h
Local: Casa Gueto, no Centro Histórico de Paraty
● Sessão de autógrafos
Data: 24 de julho (sexta-feira)
Horário: 15h
Local: Casa Gueto, no Centro Histórico de Paraty