Teatro

Indicado ao Prêmio Shell como Melhor Ator, Lucas Sampaio leva ao palco o samba que o formou

Criado no carnaval, um dos integrantes do Complexo Negra Palavra é reconhecido por sua performance no espetáculo “Poesia do Samba”

 

Nascido no subúrbio, nos melhores dias, Lucas Sampaio teve nas escolas de samba sua primeira formação artística. Essa vivência atravessa sua presença em “Poesia do Samba”, espetáculo do Complexo Negra Palavra, onde o artista canta, dança, atua e toca percussão, articulando memória e identidade negra em cena. Para o ator, o trabalho simboliza a maturidade do coletivo e um reencontro com a própria origem. “Foi como revisitar o quintal de casa”, afirma. A performance lhe rendeu a indicação ao Prêmio Shell como Melhor Ator. Neste ano, a cerimônia acontece em março, em São Paulo.

O vínculo com o samba vem desde antes de nascer. Em 1997, Lucas já estava na avenida, quando sua mãe, grávida, desfilava no Abre Alas da G.R.E.S. Unidos Viradouro. Enquanto isso, o pai também construía trajetória nas escolas como comissão de frente, guardião de mestre-sala e porta-bandeira, diretor de harmonia e hoje diretor de carnaval. Logo na infância, o ator começou nas escolas mirins Golfinhos da Guanabara, Mangueira do Amanhã e Herdeiros da Vila, até chegar ao desfile adulto. Criado em Água Santa, Lucas Sampaio aprendeu desde muito novo que arte é coletivo e disciplina, princípios que sustentam seu trabalho até hoje. “Escola de samba é uma escola com todas as letras, um lugar onde se aprende muito, de tudo. O fazer artístico em suas formas múltiplas está lá. Eu sou fruto disso”, comenta.

A formação cultural foi além: quando criança era presença assídua nos teatros dos Sescs da Zona Norte e tinha o costume de criar e encenar peças dentro de casa. Aos 12 anos, mergulhou no estudo da percussão e se tornou multi-instrumentista, habilidade que se tornaria extensão natural de sua presença cênica. Já na adolescência, foi atleta de basquete e disputou campeonatos cariocas, experiência que lhe ensinou comprometimento e trabalho em equipe.  Até que, influenciado por leituras como Cidade Partida, de Zuenir Ventura e Capão Pecado, de Ferréz, decidiu cursar ciência política. Foi durante a universidade que aprofundou o olhar sobre as questões sociais e raciais que atravessariam, mais adiante, o seu trabalho. Ali, por meio de um projeto de extensão, reencontrou o teatro de maneira decisiva.

A estreia profissional veio em 2019, com “Negra Palavra: Solano Trindade”, espetáculo que marcou também o início de sua caminhada ao lado do grupo que há sete anos vem se consolidando como importante voz do teatro negro contemporâneo. Desde então, os convites não param de aparecer. Trabalhou nas produções “Guasu”, “És, tu Brasil”, “Amor de Baile”, “Pelada: a hora da gaymada”, entre outras. Também assinou sua primeira direção com “Solaninho: uma viagem com o poeta do povo”. Curiosamente, todas as montagens indicadas ou vencedoras de prêmios. “Eu estou em um momento em que o teatro está me abraçando firme e forte, dizendo ‘fique tranquilo, continue aqui comigo’. Estou abraçando e me deixando ser abraçado pelo teatro”, comenta.

Mais do que celebrar a indicação, o ator a interpreta como gesto simbólico em um campo ainda marcado por desigualdades. “Eu me considero um ator de teatro porque foi ele que me trouxe até aqui com dignidade, e sou muito grato também pelo simbolismo de ter sido indicado com o Negra Palavra, porque foi onde eu comecei”, diz. Em um cenário onde artistas de palco frequentemente enfrentam desvalorização, seja financeira, seja no reconhecimento público, o prêmio se torna uma afirmação de permanência.

“A gente ainda é, muitas vezes, colocado à margem em relação aos artistas do audiovisual. Às vezes parece que é uma virada de chave chegar no audiovisual, mas eu não acredito que eu esteja no teatro para chegar em outro lugar. Ainda que eu queira, sim, me experimentar em outras linguagens. Eu penso que o teatro me deu muita régua e compasso pra chegar até aqui, então essas flores, esse abraço, que são essas indicações e prêmios, são muito importantes porque valorizam nossa trajetória”, revela.

Em breve, Lucas estreia um novo projeto, desta vez assinando como diretor geral, o espetáculo cênico-musical “Pura Beleza Jazz”, concebido e interpretado por Raphael Elias, com previsão para final de abril na Sala Cecília Meirelles. Para o futuro, o ator deseja conquistar outros sonhos: integrar o elenco de um musical; se dedicar a uma cuidadosa preparação de personagem para o cinema, novela ou série, e fazer com que seu trabalho chegue a pessoas comuns, como sua tia, primos e avós, segundo ele “pessoas pé no chão que chegam do trabalho e ligam a TV para se distrair”. Mas principalmente, Lucas Sampaio sonha que o Complexo Negra Palavra prospere ainda mais, conseguindo uma sede e fomento para realizar suas atividades.

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