
Fotos: Gabi Carreira
A Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, inaugura, em 16 de junho de 2026, a
mostra Desconstrutivo, de Antonio Bokel, com curadoria de Daniela Avellar.
Reunindo obras produzidas entre 2025 e 2026, a individual apresenta um recorte da
produção recente do artista, condensando os principais eixos de sua pesquisa atual. O
conjunto reúne telas de grande formato, obras sobre papel, esculturas em cimento e
bronze, trabalhos manipuláveis e obras com espelho, além de pinturas que expandem
a relação entre superfície, volume e ocupação espacial.
Há alguns anos, a geometria assumiu protagonismo na produção do artista. Em
Desconstrutivo, no entanto, ela surge distante da tradição racionalista do
construtivismo histórico. As formas aparecem interrompidas ou desalinhadas por
cortes e elementos que desorganizam sua aparente estabilidade. O círculo, recorrente
em várias obras da exposição, não se completa: há sempre uma fratura capaz de
produzir ruído.


“Os construtivistas tinham uma ideia utópica sobre a industrialização e o progresso. A
geometria que eu busco hoje é mais distópica, porque ela tem sempre uma
interrupção, algo que desencaixa, ou um elemento da natureza que quebra a lógica
geométrica”, afirma Antonio.

A exposição reúne trabalhos emblemáticos dessa pesquisa recente, como “Azul para o
preto, preto para o azul” (2026), em que pintura, objeto e espelho se fundem num jogo
óptico de reflexos e deslocamentos; “Desencontro” (2026), pintura apresentada em
diálogo com uma escultura em bronze polido sem título, na qual formas semelhantes
parecem se repelir e perder seu encaixe original; e “Vai–Vem” (2026), escultura em
aço corten e bronze polido, que traduz fisicamente a ideia de equilíbrio precário e
oscilação contínua.
De acordo com Daniela Avellar, o conceito de desconstrutivo também aparece como
jogo: “Existe um gesto de desmontar, cortar, produzir cisões e reorganizar essas
formas. Ao mesmo tempo em que o trabalho fala de ruptura, ele preserva algo de
lúdico, de brincadeira construtiva”, observa a curadora. “E há muitos anos o público
carioca não via reunido um conjunto expressivo da produção recente do Antonio."
Em várias obras, Bokel desloca elementos tradicionalmente associados à estrutura da
obra de arte — moldura, vidro, espelho, chassi, suporte — para transformá-los em
matéria escultórica. As pinturas deixam de operar apenas como superfície e passam a
existir também como volume, corte e ocupação espacial. Segundo o artista, a
escultura passou a reger toda a sua produção, inclusive pictórica.
“Hoje, eu não sinto mais que estou falando sobre pintura. Mesmo as pinturas falam
sobre escultura, vazio, espaço e arquitetura. A escultura passou a orientar o meu
pensamento sobre a forma”, revela.

A montagem ocupa as diferentes salas da galeria em relação com a circulação, os
vãos e a paisagem de Ipanema, especialmente na grande vitrine voltada para a praia.
Ali, a palavra Desconstrutivo aparece também como elemento visual e espacial,
aproximando-se da poesia concreta e expandindo o título da mostra para além do
texto.
A produção recente de Bokel aponta para uma geometria contaminada pela
experiência cotidiana e as instabilidades do mundo contemporâneo. A obra dele não
trabalha com uma geometria puramente racional. Existe ali uma geometria sensível,
ligada ao improviso, ao desequilíbrio e às negociações da própria vida. As formas
parecem buscar estabilidade, mas algo sempre escapa ou rompe essa ordem. É
justamente nessa tensão que o trabalho ganha força”, observa a curadora.