
O Teatro Firjan SESI Centro recebe, a partir de 27 de abril, o espetáculo “Medeia” com dramaturgia inédita de Diogo Liberano, que se baseou nas versões de Eurípides e Sêneca, além da mitologia grega, mas começando de onde as tragédias terminam. Na construção de Liberano, Medeia interrompe o desfecho clássico e confronta, diante de Jasão, a história que ficou sem resolução. A direção de Paulo de Moraes conta com atuações marcantes de Carolina Pismel e Paulo Verlings. A temporada de estreia nacional será no Teatro Firjan SESI Centro, com apresentações às segundas e terças, às 19h, até 2 de junho.
No imaginário ocidental, o mito de Medeia e Jasão permanece como uma das narrativas mais perturbadoras da antiguidade por condensar amor, traição, ambição política e violência em uma mesma trama: depois de ajudar Jasão a conquistar o tosão de ouro, abandonar sua terra e romper com a própria família, Medeia vê-se descartada quando o herói decide casar-se com a filha do rei de Corinto em busca de prestígio social; a resposta da personagem, marcada por uma vingança extrema, transforma o mito em reflexão duradoura sobre exclusão, poder e condição feminina. Na leitura clássica de Eurípides, Medeia deixa de ser simples monstruosidade para se afirmar como voz trágica de uma mulher estrangeira e humilhada, cuja dor expõe as fissuras morais de uma sociedade patriarcal, da figura que é aceita enquanto útil e rejeitada quando se torna inconveniente. Ferida por uma estrutura de poder que a marginaliza por ser mulher, estrangeira e sem proteção política, sua vingança impede leituras simplificadoras: ela não cabe nem na figura da vítima passiva nem na da vilã absoluta. Sua ambiguidade é o que sustenta sua atualidade.
Ao final das tragédias clássicas de Eurípides e Sêneca, Medeia parte. Suspensa em um carro alado, ela escapa, levando consigo uma história que parece encerrada. A dramaturgia de Diogo Liberano começa justamente aí. Em vez de permitir a partida, a peça interrompe esse desfecho e segura Medeia e Jasão no mesmo espaço, obrigando-os a permanecer diante daquilo que ainda não foi resolvido.
Em uma casa comprimida no espaço e no tempo, os dois se reencontram. Do lado de fora, uma cidade em convulsão; do lado de dentro, um ar denso, onde memória e linguagem parecem não avançar. É nesse ambiente instável que o mito de Medeia – amplamente conhecido pelo gesto extremo de uma mãe que mata os próprios filhos – é colocado sob tensão. E se essa história, tal como chegou até nós, não tivesse sido devidamente contada?
A peça se constrói como um confronto direto entre Medeia e Jasão, interpretados por Carolina Pismel e Paulo Verlings, que atravessam diferentes registros de atuação e linguagem. Ao mesmo tempo em que encarnam as figuras centrais do mito, também desdobram outras presenças – como o rei Creonte – sem recorrer a marcações fixas, fazendo do próprio jogo cênico um campo de instabilidade e transformação. Para o diretor Paulo de Moraes, “o meu grande desafio junto aos atores é manter sempre pulsante essa troca constante entre contar e viver a história de Medeia e Jasão, proposta no texto”.
A encenação organiza um sistema em que luz, trilha sonora, figurino e espaço não ilustram a ação, mas operam como extensão das rubricas do texto, tornando visível aquilo que se passa no limite entre o que é dito e o que permanece em suspensão. A pequena casa em cena, longe de qualquer realismo, funciona como um dispositivo de pressão: um lugar onde o passado insiste, onde as versões colidem e onde o tempo parece poder ser interrompido.
A linguagem do texto também acompanha esse movimento. Partindo de um registro mais formal, associado à tradição trágica, o texto desloca progressivamente sua forma de dizer, aproximando-se de uma fala mais direta, sem abandonar a densidade que sustenta o embate. Nesse percurso, a peça expõe não apenas o conflito entre duas figuras, mas também os modos pelos quais uma história é construída.
A dramaturgia refaz e atravessa momentos centrais das tragédias clássicas, ao mesmo tempo em que inventa situações que nelas não aparecem: o primeiro encontro entre Medeia e Jasão, as negociações entre Jasão e Creonte para o casamento do herói com a princesa Creusa. Ao avançar diretamente a partir dos desfechos consagrados dessas obras, o texto desloca o foco da ação para aquilo que resta: o que não foi dito, o que foi transformado em versão dominante.
Nas palavras do dramaturgo Diogo Liberano, “escrever Medeia hoje jamais poderia ser um ato para tornar o texto mais palatável e compreensível. O ponto, para mim, foi indagar por qual motivo Medeia é simplificada como uma mãe assassina e uma mulher vingativa. Por que as violências que ela sofreu são menores do que os crimes que cometeu? Escrever outra versão para Medeia é reconhecer, com dificuldade, que o mundo não é o mesmo e está mudando”.
Mais do que uma releitura, esta “Medeia” opera como uma escrita que desafia a narrativa hegemônica do mito. Ao convocar referências que atravessam a filosofia, a teoria crítica e a música – como Isabelle Stengers, Susan Sontag, Walter Benjamin e Florence Welch – a dramaturgia tensiona o próprio estatuto da história: quem a conta, quem a sustenta e quem é fixado nela.
O que se apresenta em cena não é a tentativa de corrigir uma história, mas de expor sua construção. Entre versões que se impõem e vozes que são apagadas, “Medeia” coloca em jogo uma pergunta central: o que ainda não foi dito, e o que se torna possível quando essa história volta a ser contada?