
A estudante Franca Jarach, de 18 anos, foi sequestrada meses depois do golpe que instaurou a Ditadura Militar na Argentina em 24 de março de 1976. Sua mãe, Vera Jarach, só descobriu que ela havia sido torturada e morta por militares 20 anos depois e, hoje, depois de meio século, ela, que é uma das fundadoras da Associação Mães da Praça de Maio segue na luta por justiça. Essa e outras histórias são contadas no primeiro capítulo da série inédita “Fronteiras da Memória”, que estreia com exclusividade no canal Curta!. A produção está completa no CurtaOn – Clube de Documentários.
Dirigida por Stela Grisotti, a produção da MMTV foi viabilizada com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Em três episódios, a série original busca entender como Argentina, Brasil e Chile lidam com o passado, com suas memórias e as cicatrizes das ditaduras militares de meados do século XX.
“Necessitamos nunca mais do silêncio, não podemos ficar quietos. Temos que falar, denunciar. E com isso, há esperança. Me perguntam como se chamava minha filha e eu digo: não se chamava, ainda se chama Franca”, ressalta Jarach, em depoimento inédito para a série.
No episódio de estreia, a produção mostra como, a partir do golpe de 1976, o terrorismo de estado foi praticado com um plano sistemático de sequestros, desaparecimentos e mortes. E aborda temas como a Copa do Mundo de 78, utilizada como propaganda política, e o histórico julgamento das Juntas Militares, em 1985, após a redemocratização, a partir dos personagens que vivenciaram o período. Entre eles, Estela Carlotto, presidente das Avós da Praça de Maio, e Leonardo Fossati, coordenador do Espaço para Memória e Promoção dos Direitos Humanos de La Plata, um dos centros clandestinos de prisão e tortura que foram transformados em espaços de memória e educação.
Além de registros inéditos, imagens de arquivo ajudam a contar as histórias, como a de Victoria Montenegro. Com apenas 13 dias de vida, foi um dos 500 bebês sequestrados de suas famílias pelos militares. Ela cresceu na família do coronel responsável pelo assassinato de seus pais biológicos, entre os 30 mil mortos pela ditadura.
“Nosso país, nesse processo de Justiça, tem uma ferramenta muito forte. Há sentenças, há provas reais, há condenações. Os genocidas no nosso país morrem condenados. E continuam sendo julgados até hoje, e continuamos encontrando desaparecidos e netos. Então essa memória tem sentido, e o que precisamos fazer é multiplicá-la para que se torne um anticorpo nos tempos de hoje”, avalia Montenegro, hoje deputada e presidente da comissão de Direitos Humanos da Câmara de Buenos Aires.
Também levada de seus país biológicos, outra entrevistada é a professora Analia Kalinec. Integrante do coletivo “Histórias Desobedientes”, composto por parentes de agentes da repressão, ela é filha do temido Eduardo Kalinec, o Dr. K, ex-policial responsável por casos de tortura e sequestro, julgado e preso em 2005 por crimes contra a humanidade.
“Coloco em perspectiva o fato de que nasci na Ditadura, algo que ainda não tinha situado em uma linha cronológica e pensava que tinha algum erro, que se enganaram. Meu pai não poderia ser essa pessoa. Eu não conseguia questionar ou colocar em dúvida essa imagem de pai. Meu pai era presente, eu era pequena, e ele já havia sequestrado, torturado. É a pergunta que me faço: como pode a mente de um ser humano coexistir nesses dois mundos”, questiona Analia.
“Fronteiras da Memória” é uma produção da MMTVT, viabilizada pelo Curta! através do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Os três episódios podem ser vistos no CurtaOn – Clube de Documentários, disponível no Prime Video Channels, da Amazon, na Claro tv+ e no site oficial (CurtaOn.com.br). A estreia no canal é no dia temático Sextas de História & Sociedade, 10 de abril, às 21h20.