
A primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB) promete reposicionar a arquitetura no imaginário cultural do país, e um dos destaques da programação é o espaço assinado pelo arquiteto curitibano André Henning. Convidado pela curadoria nacional, o profissional é responsável pelo projeto da cafeteria oficial do evento, que acontece de 25 de março a 30 de abril, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera, na cidade de São Paulo.

Idealizada pela plataforma Archa, a BAB 2026 surge como uma iniciativa independente e sem fins lucrativos, com o tema “A arquitetura está em tudo”. A escolha do local já é uma declaração de intenções: a Bienal ocupa o Pavilhão das Culturas Brasileiras (PACUBRA), edifício projetado por Oscar Niemeyer com paisagismo de Roberto Burle Marx. Dentro desse espaço histórico, o evento apresenta o conceito de Pavilhão Brasil, reunindo estruturas inspiradas nos biomas nacionais e criando uma experiência imersiva que convida o público a percorrer o país por meio da arquitetura.

Batizado de “Café Ode ao Caramelo”, o ambiente projetado por Henning vai além da função de apoio e se estabelece como extensão conceitual da Bienal. Integrado ao percurso expositivo, o espaço foi desenhado para estimular encontros e permanências. “O café é um lugar onde as pessoas se encontram sem roteiro. A proposta foi criar um ambiente que acolha essas pausas e conversas, entendendo a arquitetura como algo que acontece no uso e na experiência”, explica Henning.
O conceito do projeto parte de um dos símbolos mais afetivos e reconhecíveis do Brasil: o cachorro caramelo. A partir dessa referência, o arquiteto constrói uma narrativa sofisticada e contemporânea baseada na materialidade. “Os materiais utilizados no projeto seguem essa tonalidade de caramelo e marrom, que além de ser super atual, também é atemporal. É uma cor que está em alta, mas que, principalmente, carrega essa identificação imediata com o Brasil que quisemos homenagear”, destaca o profissional.
A riqueza do espaço está na combinação de materiais e texturas. Madeira natural, couro caramelo, granito Café Imperial em acabamento escovado e superfícies com efeito de cimento queimado, também na tonalidade caramelo, criam uma composição envolvente e sensorial. O mobiliário reforça esse discurso: diversas peças foram desenhadas exclusivamente para o projeto, incluindo cadeiras, banquetas e mesas que combinam corda e metal em uma linguagem contemporânea e autoral.
A iluminação é outro elemento-chave da experiência. Com uso de skylines, o projeto aposta em uma luz mais direta que rebate para a parte inferior, criando profundidade e conforto visual. Pontos de luz adicionais sobre as mesas reforçam a atmosfera acolhedora. A estratégia também responde às limitações do espaço expositivo. “Como estamos em um edifício icônico, onde não podemos fazer intervenções em piso, paredes ou teto, pensamos o projeto como uma estrutura independente, praticamente flutuante, respeitando integralmente a arquitetura do Niemeyer”, ressalta o arquiteto.
A curadoria de objetos e obras de arte amplia a narrativa do ambiente. O espaço reúne peças autorais e uma seleção de objetos decorativos em cerâmica, barro, madeira e outros elementos naturais, reforçando a estética terrosa e orgânica do projeto. As obras expostas foram desenvolvidas com exclusividade por artistas convidados, entre eles, nomes da arte urbana, digital, pintura e fotografia, provocados a interpretar, sob diferentes linguagens, o universo simbólico do “caramelo”. O resultado é uma coleção diversa e sensível, que transforma o café também em espaço expositivo.
A vegetação aparece como elemento estruturante da experiência. Em diálogo direto com o Parque Ibirapuera, o projeto cria aberturas que emolduram a paisagem externa, enquanto o verde invade o interior, dissolvendo fronteiras. “A ideia foi criar uma sensação de continuidade com o parque, como se o café fosse uma grande varanda, onde interior e exterior se misturam de forma natural”, completa Henning.
Mais do que um espaço de convivência, o “Café Ode ao Caramelo” sintetiza o espírito da BAB 2026 ao transformar o cotidiano em experiência arquitetônica. Um ambiente onde o Brasil não é representado de forma literal, mas sentido na matéria, na luz e nas relações que ali acontecem.