Cinema

Série original ‘Fronteiras da Memória’ revisita o período das ditaduras argentina

É de Eduardo Longoni uma das fotos mais emblemáticas do esporte: o gol de mão de Diego Maradona contra a Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986. Um ano antes desse registro, suas mãos foram responsáveis por um outro momento histórico: as imagens do julgamento que levou militares argentinos ao banco dos réus por crimes contra a humanidade, cometidos durante a Ditadura que assolou o país e que, no próximo dia 24, completa 50 anos. As lembranças do fotógrafo argentino Eduardo Longoni estão na série inédita e exclusiva Fronteiras da Memória, que estreia agora no CurtaOn – Clube de Documentários e que chega ao canal Curta! em 10 de abril, com episódios semanais.
Dirigida por Stela Grisotti, a produção da MMTV foi viabilizada com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Em três episódios, a série original não apenas se detém a contar e resgatar histórias e experiências de cidadãos argentinos, como também de brasileiros e de chilenos que compartilharam a mesma realidade e mostram como seus países lidaram ou ainda lidam com as memórias deste passado.
No episódio Argentina, Longoni relembra o momento em que se viu na frente dos acusados no julgamento das Juntas Militares: “Havia uma portinha pela qual esses monstros, esses assassinos, iam entrar. Os caras que eu tive medo a minha vida toda, os caras responsáveis pelo desaparecimento de colegas meus do colégio. E me recordo com muita clareza como tremiam as minhas mãos, e que eu não conseguia decidir qual lente colocar na câmera. O clima era terrível. Um ano e meio após a restauração da democracia, iriam se sentar no banco dos réus os que tinham sido amos e senhores deste país. Lembro que a porta se abriu e eu comecei a chorar”.
Além dele, outros nomes que transformaram a dor em luta por verdade e justiça estão no episódio. Uma delas, é Victoria Montenegro que revisita sua própria história ao homenagear os pais desaparecidos. Filha de militantes assassinados, teve sua identidade apagada ainda bebê ao ser apropriada por um militar e e criada com outra identidade. Recuperou sua origem com o apoio das Avós da Praça de Maio. O movimento ganha voz através das lembranças duas integrantes: Vera Jarach e Estela Carlotto, que ajudaram a romper o silêncio imposto pelo terrorismo de Estado.
No Brasil, a série percorre diferentes territórios para revelar como o país ainda convive com silêncios e marcas deixadas pelo período. Na Paraíba, a memória das Ligas Camponesas é contada a partir da trajetória de João Pedro Teixeira, líder camponês assassinado, e de Elisabeth Teixeira, que manteve viva a luta pela terra mesmo sob longa perseguição. O Memorial das Ligas e Lutas Camponesas, em Sapé, na Paraíba, é um espaço sustentado coletivamente pela comunidade de trabalhadores rurais e Juliana Teixeira, neta de Elisabeth, e Alane Lima, presidenta do Memorial, dão continuidade a esse legado.
Em São Paulo, o escritor Marcelo Rubens Paiva revisita a história do pai, Rubens Paiva, enquanto percorre o Memorial da Resistência. No antigo prédio do DOPS, suas lembranças pessoais se cruzam com relatos de outras famílias, revelando como o espaço ajuda a elaborar ausências deixadas pela Ditadura.
No Ceará, a trajetória de Caio Rezende amplia esse olhar. Filho de um militar, ele cresceu acreditando na versão oficial do regime, até investigar a própria história e descobrir o envolvimento do pai com a repressão — ruptura que o levou a transformar o confronto familiar em reflexão e criação artística.
O episódio dedicado ao Chile acompanha diferentes personagens que revelam as marcas da Ditadura liderada pelo general Augusto Pinochet, mostrando que a memória é um processo vivo, em constante reinvenção. Na zona rural do Paine, Sara Mendes Guajardo, filha de um camponês assassinado, transforma a ausência do pai em luta coletiva por justiça. Sua história se entrelaça ao Memorial do Paine, construído pela comunidade para lembrar 70 trabalhadores rurais mortos na região.
Em Santiago, o Estádio Nacional surge como um lugar de sentidos sobrepostos: símbolo de celebração esportiva e, ao mesmo tempo, cenário de prisão e violência. Manuel Méndez ficou preso ali e hoje atua como guia do memorial instalado no espaço. Na capital, a série visita o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, e encontra Ninóska Henriquez Araya e sua mãe, uma das muitas famílias marcadas pelo desaparecimento de parentes. Ninóska mostra uma carta escrita na infância à esposa de Pinochet, em busca de notícias sobre os avós desaparecidos.
No extremo sul do país, na região de Magalhães, Magda Ruiz e suas ex-companheiras de cárcere lutam para transformar a antiga prisão onde estiveram detidas em um espaço de memória aberto à sociedade. Já a trajetória de Pepe Rovano amplia o olhar sobre heranças inesperadas: criado longe do pai, ele descobre na vida adulta que sua origem está ligada à repressão e transforma essa revelação no filme “Bastardo, a Herança de um Genocida”.

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