
O ator e diretor João Vítor Linhares vive um momento marcante de sua trajetória artística ao integrar a comissão de frente da Imperatriz Leopoldinense nesse carnaval. Na avenida, ele representa um dos “Neys”, junto a outros intérpretes. Desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira e coreografado por Patrick Carvalho, o enredo Camaleônico traz Ney Matogrosso como figura central, homenageando a potência performática e transgressora do artista.

Ainda no fim do carnaval passado, após assistir ao filme Homem com H, João Vítor teve a intuição que Ney se tornaria enredo de alguma escola de samba. Meses depois, em maio, a confirmação veio no Fantástico: a Imperatriz Leopoldinense o levaria para a Sapucaí. “Muitos amigos começaram a me mandar mensagens dizendo que eu precisava estar naquele desfile, então eu comecei a sonhar com isso”, lembra.
A oportunidade concreta surgiu em agosto, com a abertura oficial das audições. Durante o callback, entre mais de 120 candidatos, João tomou coragem para ir além da coreografia e pediu permissão para “virar o Ney”. Ali mesmo, diante da banca, ele se transformou: retirou parte da roupa, revelando uma saia vazada e um adereço de penas na cabeça. A performance foi aplaudida no ato. Poucos dias depois, veio a confirmação de que ele estava dentro.


A relação de João Vítor Linhares com Ney Matogrosso, no entanto, vem de antes. Formado em Teatro pela UNIRIO, o ator desenvolve há cerca de oito anos uma pesquisa profunda sobre performance, corporeidade e cabaré. “Depois que comecei a pesquisar Sebastian Droste e os Dzi Croquettes, o Ney passou a me vestir como uma luva. Existe afinidade estética, física e simbólica. O desbunde ficou comigo. As pessoas passaram a me associar a ele e cada retorno ao Ney se tornou também uma nova camada da minha pesquisa como ator”, comenta.
Em 2023, essa conexão ganhou um marco especial com o filme Sem Vergonha, sobre a vida de Maria Alcina, no qual João interpretou Ney Matogrosso na fase Secos e Molhados, inclusive ao lado do próprio Ney, que também participou da produção. “Ali eu me apaixonei não só pelo artista, mas pela pessoa. Ele é simples, generoso e extremamente profissional”, conta. Ano passado, teve a chance de performar o astro mais uma vez, com o espetáculo “Copacabana (Tu) Não Me Engana”, no Cabaré do Glaucio, em cartaz no Teatro Glaucio Gill.
Diferente do cinema ou do teatro, a preparação para o carnaval trouxe maior intensidade e rigor técnico. Desde setembro, os ensaios acontecem à noite, com aumento progressivo da carga horária, além de workshops voltados à construção da corporeidade do personagem. Fora da quadra, João mantém uma rotina disciplinada: cuida da alimentação, pratica Yoga e mergulha constantemente em registros de Ney, buscando referências de gesto, presença e energia.
Aos 28 anos, João Vitor vê essa participação como um ponto de virada. “Fazer carnaval envolve muita responsabilidade, ainda mais dentro de um campeonato disputando título. Nunca vivi nada parecido”. O sentimento se amplia pela relação com a escola: “A Imperatriz Leopoldinense é uma grande escola, marcada por tradição e excelência. Desde o primeiro ensaio de rua, encontrei uma comunidade muito unida e generosa. Hoje me sinto em casa”.
Além da atuação, João também se destaca como diretor e criador. Assina a direção artística de projetos musicais, como os clipes de Cesar Soares, e é o idealizador do Varieté Dus Amantes, projeto autoral de cabaré que considera seu “filho artístico”.
Para o futuro, João Vitor Linhares prevê outras realizações: o retorno aos palcos do Cabaré do Glaucio e novas apresentações do Varieté, inclusive com crowdfunding para uma versão cinematográfica do projeto, que será um documentário dirigido por Neville Almeida, já em andamento; outra meta para o cinema é a gravação do curta-metragem autoral Tiê Sangue, um thriller queer.